Avaliação – Mês 1

31 dias. Há um mês saímos do Brasil.  Há um mês a nossa vida é outra, uma vida completamente diferente. Melhor? Pior? Mais felizes? Arrependidos? Mais brigas? Menos dinheiro? Um mês. A intenção é ficar aqui em torno de 24 meses para o mestrado do marido, dependendo de quantas matérias ele pegar por termo. Avaliar a experiência no primeiro mês é um tanto precipitado? Claro que é. Mas, ansiosa que sou, faço aqui a primeira avaliação.

Minha frase a ser exaustivamente repetida e avaliada é: “Eu sempre fui apaixonada pelos EUA e sempre falei que moraria aqui pro resto da vida.” Mas vamos por pontos para ver quão verdadeira ela é.

1. Estamos muito mais duros. Muito. Sempre que a conversa sobre morar nos EUA surgia, em qualquer roda que eu estivesse presente, eu sempre concluía que morar nos EUA é divino e maravilhoso para quem não tem muita qualificação profissional no Brasil e tem dificuldade em conseguir um bom emprego. Por que isso? A vida para a classe média aqui é muito melhor que a do nosso país. Aqui todos têm acesso a tudo: bons carros, casa e bens de consumo em geral. A classe média aqui pode pagar USD$150/mês num carro médio zero e trocá-lo a cada 2 ou 3 anos. Aqui os juros são baixíssimos e a hipoteca de uma casa vale a pena. Aqui a escola é pública e de qualidade. Pra classe média, ainda mais para a classe baixa brasileira, é sensacional. Já a vida de quem tem um estilo de vida bem confortável no Brasil não muda muito aqui. Claro que pode-se consumir muito mais. Mas um médico/advogado/engenheiro/etc aqui e no Brasil têm, em geral, o mesmo padrão. A gente, felizmente, tinha uma vida confortável, carros bons e novos, casa boa, escola excelente para as meninas e podíamos fazer nossas viagens anuais, como gostamos, e gastar a rodo. A gente podia sair pra comer, comprar uma coisinha ou outra em toda visita ao shopping. A gente tinha renda mensal e sabia que podia contar com ela. Agora não tem mais. O dinheiro é finito. Acaba. Por isso ele é racionado. E isso está sendo o mais difícil pra mim.

(Vale um grande, enorme, adendo: “Eu sempre fui apaixonada pelos EUA e sempre falei que moraria aqui pro resto da vida”. Mas eu sempre pensei nos termos que eu morava no Brasil. Eu nunca sonhei em ser dura aqui. E é muito difícil. Difícil pra quem estava acostumada a vir aqui, entrar na Carter’s e comprar muito, comprar 100 peças de roupa para as meninas. E agora, numa super liquidação, entrar e comprar 9, catando muuuuito as baratinhas. Da última vez que viemos a passeio, viemos com 3 peças de roupa eu e 3 o marido e voltamos com quatro malas estufadas. Eu não sou consumista, há muitos anos não sou, mas não fiz voto de pobreza. Claro que vir para os EUA a turismo significava comprar. E significava comer nos  restaurantes que eu amo todos os dias. Tá, eu sabia que morar aqui não queria dizer que eu comeria fora todo dia, claro que não. Mas eu não sabia que passaria dos 80 aos 8. Ou pelo menos, não tinha me tocado que seria assim.)

2. Brigamos muito menos. Na verdade ainda não tivemos nossa grande briga. Pode parecer pouco um mês. Mas nosso último ano foi marcado por briguinhas constantes e brigonas esporádicas. Eu estava bastante insatisfeita com a minha vida de dona de casa sem saber o que fazer e numa cidade que eu não me encontrava muito. Acabávamos brigando. Aqui estamos muito mais unidos. Unidos num mesmo propósito. Unidos porque não temos mais ninguém, só nós mesmos. E mais pacientes. Pacientes porque ele não trabalha e tem menos pressão. Pacientes até porque temos que lidar menos com as famílias. E sim, famílias são maravilhosas, mas também podem causar probleminhas.

3. Aqui passamos mais tempo com as meninas do que qualquer outra época da vida delas, o que é impagável! O Otávio sempre trabalhou. Eu parei de trabalhar quando engravidei da Lia. Ainda assim, no primeiro ano da Lia eu morava em São Paulo e via a minha mãe diariamente, além de ter empregada. Ou seja, por vários momentos do dia elas me ajudavam com a Lia. Depois que mudamos para Bauru, arrumamos outra empregada e a Lia foi para a escola. Logo a Marina nasceu e a empregada também ajudava muito, além da família toda. Poucos foram os dias seguidos que ficávamos só nós quatro o dia inteiro. (Alguns domingos que não íamos almoçar com os sogros e algumas viagens que fizemos) Aqui somos só nós quatro o tempo todo. Ou só nós três agora que o marido está em aula. E isso é delicioso! Ainda não enlouqueci com elas 24hs (não pensem que não enlouquecerei). E hoje foi o primeiro dia que pedi a elas 10 minutos. 10. Porque estava com dor de cabeça. Posso dizer, com quase certeza, que elas estão gostando mais dessa vida com a gente full time!

4. Aqui comemos pior. Eu não sou boa cozinheira. Marido é melhor do que eu mas também não tem passado muito tempo na cozinha. Aí acabamos comendo o que é mais fácil fazer e bastante comida pronta. Para as meninas, claro, tentamos fazer mais, sempre tem arroz, feijão, macarrão, milho, tomate… Mas elas também estão comendo pior. Pior em qualidade mesmo. Não que eu seja uma neurótica, nunca fui. Minhas filhas sempre comeram o que tivesse. Comeram legumes e comeram Cheetos. Comeram frutas e comeram Negresco. Mas aqui elas estão comendo menos legumes e menos carne. E isso tem me incomodado. Eu tenho comido pior e menos. Se bem que eu já não estava almoçando há meses, sabe quando a pessoa enjoa de um tempero? Eu tinha enjoado do tempero da minha empregada e não conseguia almoçar. Mas ainda assim comia alguma coisinha. Não que eu comesse bem. Isso eu nunca comi. Mas comia melhor que aqui. Aqui como um pouco de comida. Aí uma mãozada no saco de tortillas. Aí um chocolate/um bolo/uma bala. Aí um nugget. E por aí vai. E muita Diet Coke.

5. Aqui não vemos e não falamos com mais ninguém. Eu só falo com marido e filhas. No máximo com uma atendente de loja. Marido ainda fala com os colegas e professores. Eu não. Eu, pessoa que já foi uma melancia, que já foi super sociável, que já foi expulsa de sala de aula milhares de vezes porque não parava de falar. Eu não falo com ninguém. Calma. Isso não é de hoje. Há anos tenho ficado mais e mais ermitã e uma pessoa menos “people person” (um tempo daqui que diz bem isso, uma pessoa que gosta de gente, pessoa extrovertida, gregária). Há anos adoro ficar só com a família. Mas ainda assim tinha meus contatos sociais. Conversava todos os dias com as professoras da escola, com algumas mães, com a empregada. Vários dias com vizinhos, amigos, parentes. Mas agora não. Agora não converso com ninguém mais. E, mesmo adorando a vida de ermitã, tenho sentido falta de gente.

6. Aqui a gente conhece coisas novas. Todo dia tem uma coisa nova, nem que seja um produto, relativamente, bobo num mercado ou um brinquedo num parquinho. Vemos carros que não conhecíamos. Vemos comidas que nunca experimentamos. Novidades diárias que aguçam nossa curiosidade e ampliam nosso conhecimento do mundo. As meninas, certamente, têm mais bagagem cultural que a maioria das crianças da idade delas. E não falo só de cultura “de arte”, mas conhecimentos gerais. Elas agora conhecem a noz que o esquilo come, pegaram na mão, viram o esquilo comendo. Elas agora conhecem o Panda Vermelho que é fofo e pequeno e não se parece em nada com o Panda que vendem “comercialmente”. Elas já ouviram pessoas conversando em inglês, em espanhol, em japonês, etc. Elas andaram de trem. De metrô. De ferry. De ônibus. Elas foram em um supermercado só de produtos orgânicos e foram nas maiores redes de Junk food. Elas fizeram várias coisas que eu nem sonhava em fazer aos 4 anos. E elas não fizeram nem um milésimo das coisas que farão nesses dois anos.

E aí, como ficou a avaliação? Quem acha que foi positiva levanta a mão! Posso falar? Acho que é neutra. Eu não estou tão entusiasmada e apaixonada como imaginei que estaria. Não estou embasbacada. Não estou deslumbrada. Mas estou longe de estar arrependida ou de não estar gostando da experiência. Acho que o potencial de serem anos espetaculares é enorme. Acho que é mais fácil adorarmos tudo e não querermos voltar nunca mais do que voltar falando que foi um erro. Acho que ainda estamos nos adaptando e até acharmos nosso lugar no mundo tem todo um desconforto natural.

Eu sou uma metamorfose ambulante. E facilmente adaptável. Já morei em dezenas de casas. E sei que encontrarei minha fonte de inesgotável alegria aqui também. Hoje, literalmente hoje, estou melancólica e saudosista. Se eu fizesse essa avaliação há 3 dias, teria sido só de pontos positivos. E, talvez, se fizesse daqui a 3 dias, seria só de negativos. Quem saberia dizer? Mas sendo justa, e assim pretendo ser nas avaliações mensais, meu posicionamento é “em cima do muro”.

Não voltaria atrás. E acho que faria novamente, mas só acho. Mês que vem eu digo se tiver certeza…

Fotos: Só pra não perder o costume… Um pouquinho delas no parquinho que temos ido toda tarde! Rs

Mais uma tarde no parquinho com água!

Mais uma tarde no parquinho com água!

Essas duas não se desgrudam!

Essas duas não se desgrudam!

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16 pensamentos sobre “Avaliação – Mês 1

  1. Faiá, seu blog é meu jornal da manhã. Eu acordo aqui do outro lado do oceano e fico de prontidão. As vezes tem postagem antes do café as vezes depois. Quando não tem fico órfã. Tenho um monte de coisas pra dividir com vc sobre a vida no exílio*, mas algo acontece no mundo virtual que meus comentários somem através de uma página em branco do meu celular. Ahhhhh se esse chegar é porque valeu redefinir senhas, e atualizar me no worldpress. Siga firme e forte! Um bjao.

    • Li!!!! Conseguiu! Esse comentário chegou! Rs Agora pode comentar em todos! Adoro!
      Quero muito saber como vc se vira por aí com a Bê lindona e o maridão!
      E fico muito feliz em saber que vc tá acompanhando as nossas peripécias daí! Obrigada pela força!
      Beijos beijos

  2. Flavinha, uma das grandes lições da vida é aquela que aprendemos sobre seguir adiante sem nunca deixar a peteca cair! Saibam que estou na torcida por vcs! Bjão

  3. Fravia, TA VALENDO! Ta super valendo! Para você, para as meninas, para o marido e para vocês como família! Vão ter essa experiência para sempre com vocês! Continuo dando os meus PARABÉNS para vocês!

  4. Continuo acompanhando as notícias dessa família linda e, cá do meu ponto de vista, penso que para o primeiro mês a avaliação é pra lá de positiva, ainda que em cima do muro!
    Continuem com esse jogo de cintura e bom humor, que a coisa vai longe…. beijinhos à todos!

  5. Flávia, eu acho que a vida é assim, nós humanos(graças a Deus) estamos sempre em busca do novo e quando nos deparamos com ele custamos a nos adaptar, mas tenho certeza que esta experiência que você e sua família linda estão vivendo será super positiva para todos no final. Beijos e muita força para vocês.

  6. Fla, delicia ler seus posts… Imagino q como toda mudança será delicioso e por vezes difícil, e ate poderá parecer impossível. Acredito q vcs acima de tudo curtirão tudo!!! E aprenderão muito!!! Vc eh demasiadamente humana… E isso te torna única e sempre te ajudara a superar e enfrentar tudo!!!! Lembro q as pessoas se assustavam com nossos debates, e eu sempre achei o máximo nossa capacidade de “brigar” e nos entender. Isso eh genuíno em vc!!!
    Aproveite, acompanho de longe!!! Rs bjos saudades

  7. amiga que topa desafios já vale todos resultados colhidos!A uníão faz a força! Vocês ficarão muito mais unidos!
    Quem tem disponibilidade interna para enfrentar os desafios, certamente vencerá! Vocês tem essa disponibilidade de sobra!
    Quem disse que você é Alice no País das Maravilhas??? O país tem coisas boas e ruins e com o tempo tudo vai para o seu devido lugar!Continuo achando que você está se exigindo demais!!!rsrsrs…
    Que seu caminho seja sempre iluminado!.Eu daqui torço para que os obstáculos sejam os menores possíveis e que todos os dias tenha alguma postagem para eu acompanhar essa jornada!
    bjs

  8. Flavia…estava eu aqui de bobeira, sentado no meu sofá depois de um longo e exaustivo dia, e me deparo com seu blog no face, paro, começo a ler e fico encantado…fiquei com gostinho de quero mais! Lendo sobre a vida que vocês estão levando ai nos EUA, comecei a fazer uma avaliação sobre a minha…também estou um pouco ermitão, fui na minha psicologa estes dias e ela me avaliando, perguntou onde estava o Marcus que ela conheceu ha 2 anos atras.”Disse estar um pouco escondido, mais seletivo, buscando um eu interior”…Enfim…não acho ruim ficar comigo mesmo, é bom dar tempo pra família, para os amigos mais chegados, o que vale é a qualidade e não quantidade…Não o quanto faço, mas como faço! E poxa…vocês estão tendo uma experiencia unica , se curtam muito, ninguém disse que seria fácil, mas o importante, é que vocês estão todos juntos! To torcendo para que esta experiencia seja maravilhosa…e Flavia de uma de Julia Roberts…COMER REZAR E AMAR…se descubra, se reinvente…Abração a toda familia

  9. Nega, mesmo que a experiencia nao seja do jeito que voce sonhou, ja valeu a pena. Porque a gente so pode se arrepender e lamentar do que fez. Mas mesmo assim, acho que sera positivo para voce, pro marido e principalmente para as meninas. Quando cheguei em Londres, passei 3 meses chorando, com depressao, desesperada para voltar pra casa. Mesmo depois de 8 anos, todo inverno eh a mesma coisa: fico mal pacas. Mas pergunta se voltaria atras; se quero voltar? Valeu a pena cada lagrima.

    • Chris!!! Eu sou super de me jogar, de ver no que vai dar, sem medo de quebrar a cara! E não tô arrependida, mas ainda não estamos amando. E eu, no casal, sou a que estou gostando mais! Rs Com as meninas é mais difícil pela responsabilidade (por mim comer uma barra de chocolate no almoço seria o suficiente), mas mais fácil pela distração, pra ocupar a cabeça… Nem me fale em inverno, é o meu medo! Da outra vez que morei aqui era adolescente e nada me incomodava, agora ficar presa em casa com elas deve ser um pesadelo!

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