As crias na escola

Então aconteceu. Elas foram, finalmente, para a escola. Desde ontem as nossas crias estão frequentando uma escola aqui perto de casa. Desde ontem as manhãs são diferentes. Desde ontem me pergunto, incessantemente, será que vai dar certo?

Eu estou tranquila. Chorei ontem depois que as deixei nas salas de aula e entrei no carro, é verdade. Mas só. Não sofri mais, não me penitenciei mais. Sei que é uma transição dolorosa, que elas terão que reaprender a ficar longe da gente, que elas estão num mundo absolutamente novo e que estão num lugar que não entendem nada, ou quase nada. Sei que as professoras aqui estão longe de serem as calorosas e carinhosas do Brasil. Sei que elas comerão mal, pelo menos a princípio, porque não estão acostumadas às comidas daqui. Sei disso e de muito mais coisas que pode não parecer legal.

Sei também que faz parte, que é um período de adaptação, que sendo inseridas neste meio elas logo estarão com o inglês mil vezes mais afiado que o nosso, que socializarão, que farão amigos, que aprenderão a comer o que se tem disponível e é comum aqui. Sei que serão mais independentes, aprenderão novas habilidades, terão mais adaptabilidade. E, felizmente, sabendo tudo isso, sei que é por uma boa causa que, neste momento, elas passam por um sofrimento.

Claro que dói, claro que eu adoraria tê-las protegidas de toda e qualquer dor que a vida apresenta. Claro. Elas não pediram para vir para cá e, caso entendessem, teriam dito que não queriam vir, teriam batido os pés. Mas cá estamos todos juntos, mais juntos do que jamais estivemos, e essa transição faz parte. Então, façamos da melhor forma. E como é? Não faço a mais remota idéia, mas o que tentamos fazer foi: 1) Procurar a escola que mais combinasse com o nosso estilo/pensamento; 2) Prepará-las diariamente, animando-as, contando coisas legais sobre escolas, etc; 3) Compramos roupa para o primeiro dia de aula, roupas que elas escolheram; 4) Quando as levamos vamos até a sala e ficamos alguns minutinhos até que se sintam (de alguma forma) confortáveis; 5) Quando as buscamos perguntamos sobre todas as coisas legais que fizeram, estimulamos constamente o prazer de ir a escola. Óbvio, né? E parece fácil, mas não é.

Não foi naaaada fácil ir buscá-las ontem e perguntar à Marina como foi no parquinho e a conversa foi a seguinte: EU: Marina, você estava com seus amigos no parquinho? / MARINA: Não, eu tava sozinha. / EU: Ué, mas você não estava com todo mundo. / MARINA: Tava, mas eu não queria ninguém, eu queria vocês dois. — Morri, claro. Quis chorar até não poder mais. Senti a tristeza dela, a solidão dela (senti também orgulho por ela saber explicar-me tão bem seus sentimentos, né? Nem 3 anos ainda!!!). Mas, como eu disse, faz parte, caminhemos.

A Lia tem enfrentado tudo muito bem, ela não está amando (já disse que é mais ou menos, mas já me contou que aprendeu “You can do it”e “Awesome”!) e está indo sem reclamar. Mas nem sempre foram flores. No domingo ela deu muito trabalho para dormir. Brigou muito comigo, me bateu, chorou, esperneou, foi uma Lia que eu não conhecia. Claro que rapidamente entendemos o que se passava e tentamos amenizar a ansiedade. Ela só dormiu com muito carinho, depois de chorar muito e abraçada a mim. Eu queria que aquele abraço durasse para sempre. Mas durou o suficiente para tranquilizá-la e isso me bastou.

A Lia tem só uma professora, a Miss Susan, uma senhora de uns 55 anos que há 25 trabalha na rede desta escola. Não é das mais falantes nem simpáticas, mas adorei que ela prestou atenção na Lia e hoje veio elogiar que a Lia escreve muito bem. A Marina tem duas professoras, Miss Danielle e Miss Bonita (isso mesmo, bonita). A Miss Danielle é mais velha, uns 40 anos (credo! Eu estou na categoria de “mais velha”tb???), mais quieta, mas parece legal. A Miss Bonita é novinha, deve ter uns 27 anos e é uma simpatia, super sorridente e vive dando colo pra Marina! E a diretora é um amorzinho, a Miss Terry.

E para mim tem sido bom um tempo sem crianças. Pessoas, foram 5 meses e meio intensos, dia e noite, noite e dia (em julho elas já estavam de férias, mas ainda tinha a minha empregada em Bauru)! Quase surtei, ou melhor, surtei algumas vezes de exaustão! Mas passou. Eu voltei aos exercícios fazendo esteira pela manhã. Tenho tempo de arrumar a casa, lavar roupa, etc, antes delas chegarem e tenho, então, a tarde só para elas. O Otávio só pegou aulas à noite esse semestre, então ele também tem se exercitado e cuidado da casa, mas a disponibilidade dele não será eterna, infelizmente, logo ele terá que aproveitar as manhãs para estudar. Por enquanto elas estão das 8;30 às 12h15, mas podemos deixá-las das 8hs às 15hs, depende só de nós, o preço não muda. E tem café da manhã, almoço e lanche da tarde incluídos, não precisamos levar nad. Acho que será uma experiência positiva. (Tenho que achar, ou eu fico louca.)

P.S.: Agora antes de dormir a Lia me contou que brincou com um amiguinho hoje, mais uma conquista. A Marina disse que não brincou com ninguém, mas ajudou a escolher a roupa de amanhã e não reclamou (ontem à noite ela havia dito que não queria ir à escola, hoje ela já não disse isso.) São pequenos progressos diários, passinhos de formiga, mas logo chegaremos ao equilíbrio.

P.S.2: Marido está sofrendo bem mais que eu com a adaptação delas. Acho que por três motivos: 1) Ele não presenciou a adaptação em Bauru (e foi punk pra Marina) então não sabia muito o que esperar; 2) É meio que uma adaptação para ele também que ficou mal acostumado de tê-las conosco o tempo todo e antes ele trabalhava; 3) Eu confesso, sou muito mais sargento que ele, que paparica as duas o tempo todo! Então ele não quer ver as princesinhas chorando hora nenhuma! Hehe

P.S.3: fotos delas na porta da escola no primeiro dia, na cama elástica que compramos e colocamos na garagem e brincando de bolhas de sabão na nossa varandinha

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3 pensamentos sobre “As crias na escola

  1. Flavinha, cada vez que leio suas aventuras, fico mais inspirada a me aventurar também – na maternidade, a mudar de cidade, a carregar a casa nas costas e por aí vai. Torço muito por vocês e me delicio com tudo o que você escreve.
    Quem sabe não vira um super livro um dia né?
    Beijos.

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